Convergência à esquerda… uma ideia peregrina… ou talvez não!

No debate que a colocou frente-a-frente com o candidato apoiado pelo PCP João Ferreira, Ana Gomes arranca com aquela que foi a principal novidade da semana relativa á corrida para Belém: a ideia de uma convergência das 3 candidaturas de esquerda…

Na verdade, a ideia em si não é absolutamente nova, uma vez que não se trata de nada que nunca tenha acontecido em eleições anteriores… mas o facto de ter surgido a mais de 2 semanas da data das eleições acaba por me surpreender…

Ainda assim a ideia não é descabida… mas importa perceber o que cada candidato tem a ganhar ou a perder com esta estratégia: 

  • Para João Ferreira e para o PCP: 

Dos 3 partidos da esquerda parlamentar o PCP é aquele que mais sofreu com os entendimentos a três das últimas duas legislaturas… 

Ao viabilizar o governo de António Costa o PCP contribuiu para tirar Passos Coelho do governo e ganhou alguma capacidade de influenciar a governação… mas perdeu o distanciamento que lhe permitia por um lado, ter um discurso mais marcado pelos seus princípios sem necessitar de fazer concessões de qualquer tipo e, por outro lado, permitia-lhe colar o PS ao PSD e à direita e com isso segurar muitos votos que hoje lhe parecem estar a fugir…

Como resultado o PCP vem somando os piores resultados de sempre em sucessivas eleições desde a formação da geringonça: presidenciais 2016, autárquicas 2017, europeias 2019 e legislativas 2019…

Assim, o lançamento de um candidato forte como João Ferreira corresponde á necessidade imperiosa do PCP em fixar o seu eleitorado!… 

Por outro lado, para João Ferreira um resultado positivo, nestas presidenciais, pode ser decisivo para que se assuma definitivamente como o futuro secretário geral do partido!

Assim… enquanto o PCP acreditar que pode melhorar o score das ultimas presidenciais a possibilidade de uma desistência não deverá ser equacionada!

  • Para Marisa Matias e para o BE

O forte crescimento nas legislativas de 2015 foi muito importante para tornar possível o acordo das esquerdas que levou à geringonça… e, ao contrário do PCP, esta solução parece ter sido favorável à consolidação do Bloco como terceira força parlamentar…

No entanto, as negociações do último orçamento de estado, marcaram um divorcio entre bloco e PS e, de algum modo, podem aumentar o grau de risco para o Bloco de Esquerda.

Por seu turno Marisa Matias, tem sido um trunfo que já valeu grandes noites eleitorais ao bloco e foi, por isso mesmo, uma aposta séria do partido na repetição de um bom resultado este ano… 

  • Para Ana Gomes

Uma das características que todos reconhecemos a Ana Gomes é a coragem… desde os seus tempos de Timor Leste passando toda a sua intervenção política em Portugal e na europa… este é o seu traço mais definidor!…

Foi essa coragem que a levou a avançar sozinha, num momento difícil em que forças, que considera antidemocráticas, emergem e ameaçam tomar uma dimensão muito relevante no nosso contexto político!

De tal modo que, a meu ver, apesar de oficialmente Ana Gomes se colocar em contraponto com Marcelo, o seu verdadeiro objectivo é derrotar André Ventura e a sua ambição populista…

Assim, interessa a Ana Gomes toda a convergência que lhe permita alargar a sua base de apoio de modo a segurar a segunda posição e distanciar-se o mais possível de Ventura!…

  • E quanto á esquerda como um todo…

Se o interesse de cada um dos candidatos e dos partidos que os apoiam parecem não convergir… existe algo que, no seu conjunto, todos temem mais do que a possibilidade de uma baixa votação a 24 de janeiro! Trata-se do cenário hipotético de uma segunda volta que oponha André Ventura a Marcelo Rebelo de Sousa!…

Este cenário, mesmo que improvável, é possível… e estará seguramente nos piores pesadelos de qualquer um destes partidos, não tanto pelo risco de Ventura se tornar presidente, mas pelo que isso pode significar em termos de crescimento do Chega e da sua posição de partida para eleições futuras…

E o que significa isto?

Significa que a proposta de Ana Gomes não é nada descabida!… Pelo contrário… dependendo do curso que forem tomando as sondagens até aos dias anteriores à eleição… é bem possível que este seja um cenário a equacionar…

Ou seja, caso Marcelo se aproxime dos cinquenta e pouco porcento… e Ventura estiver bem lançado para a segunda posição… atrevo-me a prever que estas três candidaturas, ou pelo menos duas delas, se unam em torno de Ana Gomes numa espécie de geringonça presidencial!

A ver vamos!

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#PoliticaPortugal; #ActualidadePolitica; #SociedadePortugal; #DemocraciaParticipativa; #Presidenciais2021

Publicado por Hugo Barbosa

Empenhado em deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei!

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