Autor Convidado: Joaquim Castro de Freitas

Ainda que a tentação umbiguista nos desafie, 

Não temos o direito de deixar alguém para trás!

Um dia, já lá vão muitos anos, aprendi que acima de todas as coisas que podemos transacionar, de todos os bens que podemos negociar, de tudo o que somos capazes de controlar, e da imensidão do que não controlamos, acima de tudo isso está… o tempo.

Ricos ou pobres, com doutoramento ou sem a escolaridade obrigatória, qualquer que seja a nossa religião, ou sendo agnósticos, enfim, para lá da nossa condição, no final do dia, os dias acabam para todos 24 horas depois.

São as mesmas 24 horas, os mesmos 1440 minutos que a cada dia nos são oferecidos para deles fazermos o que entendermos.

Mas, se é assim – e eu acho mesmo que é – então como justificamos que haja quem faça tanto e quem faça tao pouco com o mesmo recurso?

Quem faça tao bem e quem faça tão mal?

É aqui, parece-me, que a coisa começa a ficar complexa. Quando percebemos que o tempo que todos os dias se deposita nas nossas mãos pelo simples facto de estarmos vivos será, em exata medida, o que dele fizermos.

Pessoalmente, decidi cedo que acima de todas as coisas que queria ser, eu queria ser feliz. Dito de outra forma, queria ser capaz de decidir fazer a cada momento aquilo que me pudesse oferecer um espaço de concretização, de realização, de plenitude. Ainda que fossem coleções de pequenos momentos que, juntos, dessem sentido ao caminho.

O escutismo, o associativismo juvenil e estudantil, as minhas profissões e os meus estudos, a minha vida política e comunitária são uma consequência dessa decisão.

E estou, francamente, feliz com ela até hoje.

E muitos anos depois descobri o que procurava:

Ubuntu: Eu sou porque tu és.

“A minha humanidade está intrinsecamente ligada à tua e, por isso, eu sou humano porque pertenço, participo e partilho de um sentido de comunidade. Tu e eu somos feitos para a interdependência e para a complementaridade.” Desmond Tutu

Se pararmos para olhar o tempo desta perspetiva – “Eu sou porque tu és” – é muito difícil não procurarmos ser radicalmente diferentes depois disto.

Para mim, esta absoluta interdependência entre todos representa o princípio fundamental da felicidade sustentável.

Baden-Powell, o fundador do escutismo tem uma frase que se aproxima desta em espírito: “A melhor maneira de sermos felizes é contribuindo para a felicidade dos outros.”

Ambas, de algum modo, nos dizem a mesma coisa:

Eu não sou sozinho, nem me concretizo sobretudo comigo, em mim, ou na minha família nuclear.

Eu sou o que me permito concretizar na realização do outro, da comunidade.

Sem individualismo ou tacticismo, olhando em redor e disponibilizando-me a atrasar o meu passo se isso ajudar outros a ter companhia no caminho.

A verdade é que o mundo, a vida contemporânea, a economia, a academia, a pressão material e social, a moda, a tecnologia, enfim, o que nos rodeia e nos influencia nos atira em sentido contrário, individualista, materialista, “umbiguista” porque nos leva a olhar mais para nós próprios do que para o que nos rodeia.

E quando nos perdemos em nós, acabamos a perder-nos de nós, e dos outros, porque os perdemos de vista.

Mas esta é uma batalha que vale a pena travar. É a batalha.

Porque é a batalha pela Humanidade. Por um mundo de gente de Boa Vontade, capaz de se concretizar no outro, de não deixar nenhum de nós para trás em dignidade e respeito, em oportunidades e futuro.

É por isso que não podemos dormir de consciência tranquila enquanto não formos esta realidade.

Não temos o direito de descansar enquanto algum dos nossos dormir na rua, com fome, doente.

Não podemos parar enquanto as decisões se tomarem com base no interesse de um, no lucro do outro, no poder de um qualquer terceiro.

Sentados no seu poder, em si e consigo, e sós.

E as nossas 24 horas por dia, os nossos 7 dias por semana, os nossos 12 meses por ano, a cada ano, são oportunidades suficientes para sermos o elo de mudança positiva, o passo em frente na concretização da Comunidade, a inspiração para que sejamos mais a querer ser diferente.

Numa diferença que valha a pena.

 #SociedadePortugal; #AutoresConvidados; #Voluntariado; #HappinessDay

Publicado por Hugo Barbosa

Empenhado em deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei!

2 opiniões sobre “Autor Convidado: Joaquim Castro de Freitas

  1. Belo texto!
    Cresci desde cedo com a crença de que tinha de trabalhar muito para ser feliz, com a crença de que a felicidade era um resultado final de algo. Nunca ninguém me ensinou que a felicidade é um caminho, que o importante eser feliz para poder trabalhar com plenitude.
    Gostei particularmente do ponto da interdependência, pois tenho para mim que tudo na vida se resume a relacionamentos em que tem de existir um equilíbrio (equidade se quisermos) entre as partes e com isso sinto que a felicidade também se pode encontrar nos momentoa difíceis, onde temos oportunidade de nos superarmos!
    Parabéns pelo texto!

    Gostar

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