Como impulsionar o papel social da actividade seguradora?

Como tive oportunidade de mencionar no meu último texto da serie “A semana em voo picado”, na sexta-feira passada a Assembleia da República deu um passo decisivo na resolução de uma injustiça evidente: o facto de, em Portugal, uma pessoa que tenha tido o azar de ter de lutar contra uma doença oncológica e a sorte de a ter vencido, não poder sonhar em comprar uma casa própria com recurso a crédito Bancário!

Esta era uma “verdade brutal” para estes cidadãos que, pelo facto de lhes ser atribuído um score de risco alto pelas companhias seguradoras, não conseguiam obter o seguro de vida obrigatório para a contratação de crédito imobiliário!…

Uma iniquidade absoluta, uma discriminação inaceitável no acesso a um direito fundamental como é o direito à habitação… ainda mais numa sociedade que se diz moderna, solidária e progressista!… 

É por isso que o projecto-lei, apresentado pelo PS e aprovado no parlamento na última sexta-feira merece todos os aplausos, sem dúvidas e sem reservas!

No entanto, se este projecto-lei irá resolver esta injustiça, não é menos verdade que não resolve todas as injustiças relacionadas com a forma como as companhias de seguros condicionam os direitos de muitos e muitas de nós.

Na verdade, esta discriminação feita aos doentes recuperados de doença oncológica é apenas a ponta do iceberg!

Se não acreditam, perguntem lá a um qualquer doente crónico as aventuras que passou no caso de já ter tentado contratar um seguro de vida ou de saúde!… Perguntem a uma pessoa que já tenha sofrido um enfarte de miocárdio!… Perguntem aos hipertensos!… Aos diabéticos!… Perguntem o mesmo a qualquer portador de qualquer doença rara!… 

E de todos receberão respostas semelhantes: recusas sucessivas, exclusões incompreensíveis ou prémios agravados de tal forma que, não raras vezes, tornam impossível a contratação do mesmo seguro!

Photo by Scott Graham on Unsplash

A razão para esta iniquidade é aparentemente simples… a actividade seguradora é uma actividade que necessita gerar lucros, que baseia o seu modelo de negócio numa base alargada de segurados e estreita de sinistros!… Assim que, a analise individual do risco de cada potencial segurado, é essencial para que este equilíbrio #segurados/#sinistros se mantenha em níveis controlados!…

Um outro elemento a ter em conta é que se trata de uma actividade concorrencial e em que a diferenciação é pequena, já que os produtos e respectivas coberturas são praticamente iguais de seguradora para seguradora e, mesmo quando alguém inova, esta inovação é facilmente copiada pelos outros actores no mercado!… Assim que o preço acaba por ser um elemento-chave na “decisão de compra” por parte dos segurados…

Daqui resulta que os preços tendem a ser baixos para as pessoas jovens e saudáveis…  e muito altos para as pessoas não tão jovens e/ou com problemas de saúde!… Traduzindo, preços baixos para os clientes que todas as seguradoras querem e muito altos para os clientes que nenhuma seguradora quer!

Ora, uma reacção fácil a esta realidade será culpar as seguradoras por quererem lucros… nada mais errado!… As seguradoras são empresas que se comportam, no mercado, como qualquer outra empresa… e que se não se comportassem desta forma não seriam sustentáveis!

Significa isto que não há solução para este problema?

Claro que não!… Não há problema que não tenha solução… Mas para encontrar a solução, a estratégia não pode ser a de encontrar culpados ou a de afundar um negócio que cumpre, em grande medida, um papel importante no nosso equilíbrio social.

Para encontrar a solução é preciso pensar de forma diferente no modelo deste negócio, e encontrar vias que permitam resolver, ou pelo menos diminuir, estas iniquidades assegurando a sustentabilidade do negócio segurador.

Uma via para isto seria a adopção do princípio da redistribuição ao negócio dos seguros. Quer dizer a de propor que a determinação dos preços fosse feita não pela análise individual de risco do segurado, mas pela análise de risco populacional… fazendo com que os preços subissem, ligeiramente, para uns de modo a assegurar o acesso aos demais!…

Isto podia inclusivamente fazer-se de forma dirigida… considerando doenças crónicas não relacionadas com as decisões individuais e deixando de fora o risco associado a hábitos, reconhecidamente, deletérios da saúde de cada um, como os hábitos tabágicos ou o consumo de drogas e/ou álcool. 

Tenho consciência que esta é uma proposta controversa… e estou seguro que existem outras potenciais soluções… eventualmente melhores ou mais fáceis de aplicar… mas creio que esta é uma discussão que vale a pena na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva…

E vocês que pensam acerca deste assunto? Que outras soluções gostariam de propor?

Venham daí essas ideias!

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#PoliticaPortugal; #ActualidadePolitica; #ActualidadePortugal; #SociedadePortugal; #DemocraciaParticipativa

Publicado por Hugo Barbosa

Empenhado em deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei!

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