Autor Convidado: Alexandre Pereira

Sou a mesma pessoa que começou?

À medida que amadureço tenho sentido uma necessidade crescente de fazer coisas para as quais não me sinto completamente preparado. Começar o que não sei se vou conseguir terminar; investir em algo sem saber do que precisarei de abrir mão para ir até ao fim; caminhar com a incerteza, avançar com a insegurança e forçar-me a viver com a humildade de quem tem medo, mas é corajoso. Fiz esta reflexão em contexto profissional, mas rapidamente percebi que foi muito isto que, em 2015, me deixou inspirar pelas loucuras de um grande amigo que corria distâncias superiores a 100km, na montanha, de noite, ao frio, à chuva, com uma lanterna na cabeça, 1 litro de água e umas barras energéticas na mochila – trail running.

Em fevereiro de 2017 corri a minha primeira prova de 3 dígitos e, em agosto desse mesmo ano, os 120km do Ultra Trail du Mont Blanc – o destino que todos os trail runners perseguem. Acontece que, desde então, entre maratonas de estrada e ultramaratonas de montanha, este hobbie tem-se transformado em algo mais profundo. Toda a gente tem uma ideia de si própria, uma espécie de identidade autocriada – se fôssemos uma empresa seria a nossa Visão. Correr tornou-se, com tudo o que de incrível e desafiante isto tem, indissociável da visão que tenho de mim próprio. Tem sido fundamental para encontrar a melhor versão de mim mesmo. Tentarei investir umas linhas a racionalizar sobre o que a corrida me tem trazido de melhor. Ou, dito de outra forma, os bons sítios para onde a corrida me tem levado.

Superação – o mais óbvio. Correr mais de 100km em contexto de montanha, com progressões lentas, desníveis acentuados, terrenos difíceis, expostos aos elementos… Ou se gosta, ou não se gosta, mas há um certo grau de estoicismo escondido dentro de cada um de nós e que eu, por acaso, descobri aqui. O que se sente quando se cruza a meta da primeira ultramaratona é aditivo e não desaparece. Vamos procurar vivê-lo outra vez. Porque se não mete medo… falta qualquer coisa.

Mantra – um passo de cada vez; eu sou capaz, eu sou forte. Parece uma parvoíce, mas esta estratégia é poderosíssima. É inevitável que jornadas destas, que podem ter muitas horas (os 120km do Monte Branco foram 30h), nos levem a patamares de sofrimento que nos façam questionar a razão de ali estarmos (afinal, bem vistas as coisas, não precisamos daquilo). Ter um mantra e repeti-lo uma e outra vez leva-nos muito longe! E agora todos conhecem o meu mantra.

Visualização – no dia 6 de fevereiro de 2022 vou fazer a maratona de Múrcia. Será a minha 6ª maratona de estrada e vou com expectativas ambiciosas. Até lá há uma coisa que faço todos os dias: sonho acordado com a prova. Sonho acordado com a partida, com os quilómetros em que me vou estar a sentir bem, com os quilómetros em que vou ter de espetar a faca e cerrar os dentes, com a estratégia de nutrição, com uma chegada à meta em menos de 3h (sucesso) e com uma chegada à meta em mais de 3h (insucesso). Visualizar o processo em detalhe, visualizar o sucesso e o insucesso… faço isto em todos os momentos de ansiedade no trabalho e é o conselho que gostava de ter recebido há muitos anos atrás. 

Meditação – visualizar é fundamental, mas o dia-a-dia não pode ser feito apenas desse excesso de futuro. Correr também me trouxe uma capacidade de viver no presente que eu desconhecia. Meditar a correr é simplesmente estar focado no que acontece ao nosso corpo; tento focar-me na sensação física da respiração ou na pura sensação de nos movermos através do espaço; rapidamente sou interrompido pelo meu cérebro que quer planear o jantar ou se lembrou daquele e-mail ou daquela reunião; tomao a decisão consciente de voltar à sensação de mover-me pelo espaço e recomeço. E recomeço as vezes que forem precisas. Este vai e vem muda de forma estrutural o nosso cérebro, torna-nos mais ágeis, mais calmos, mais focados. É fundamental desacelerar a mente.

Ser capaz de tangibilizar estas 4 zonas mentais onde a corrida me tem levado é absolutamente transformador. E não fará falta dizer que 100% disto é transponível para o dia-a-dia do trabalho, da família, dos amigos. Este espaço mental relembra-me de ser mais gentil, mais paciente, mais altruísta, mas também mais implacável, mais disciplinado, mais completo. 

Estes ultra-desafios têm servido para concretizar a visão que quero ter de mim próprio. Quando começa a doer pergunto-me sempre se sou a mesma pessoa que começou. Morro de medo de não ser. 

Caro Hugo, é um prazer partilhar estas linhas sobre um tema que me apaixona, e um privilégio constar deste teu espaço que tanto admiro. 

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#SociedadePortugal; #AutorConvidado; #Superação; #Lifestyle

Publicado por Hugo Barbosa

Empenhado em deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei!

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