Autor Convidado: Rute Teixeira

Obrigada, Hugo, por me pedires para escrever sobre a minha profissão, pois em meio século de vida nunca tive coragem de o fazer, apesar de adorar escrever. Sempre senti uma sensação na escrita de estar nua, pois não podia falar de ser médico sem falar de mim, sem me despir para o mundo! Mas os 50 trazem-nos a clareza de que o fim é uma certeza e não quero deixar de contribuir para o empoderamento de quem ler estes pedaços de alma.

Photo by Patty Brito on Unsplash

Ao contrário de muitos médicos nunca quis ser médica, não obstante, em brincadeiras aos 5 ou 6 anos em que fingia ser “Doutora” não posso dizer que está aí a origem desta minha caminhada, pois tratavam-se apenas de brincadeiras, como brincar aos “Cinco” (quem é da minha geração reconhece do quem estou a falar), ou fingia ser uma detetive de uma das aventuras nos múltiplos  livros da Agatha Christie que devorava. No entanto, dizem os que me conheceram mais de perto, que já era intenso o meu apego à leitura, a atração pelas pessoas, o amor aos animais e sobretudo pela luta contra as injustiças. 

Aos 15 anos queria ser Jornalista, e viajar pelo mundo, denunciar os horrores que assistia na televisão na altura só com dois canais, era o meu refúgio de adolescente. Mais tarde, como ser introspetivo que era,  descobri a Psicologia,  e então foi  como se encontrasse o santo Graall, mas outro amor surgiu já por volta dos 17 anos e queria tudo, não só conhecer e decifrar a pessoa interior, mas queria sobretudo curá-la das suas dores, como em tudo na minha vida o planeamento nunca foi o meu forte, sempre agi por instinto e na hora de escolher o meu futuro, depois de olhar para o meu baralho e contar os meus trunfos arrisquei tudo e numa jogada de tudo ao nada, escolhi a Medicina e posso dizer que mais do que uma profissão ou um trabalho encontrei uma Vida.

O amor à Medicina Geral e Familiar surgiu por acaso através de uma grande mentora, a dra, que me acompanhou no meu Internato geral,  no Centro de Saúde, com ela rebusquei o meu baú e encontrei outro Médico, Fernando Namora e o seu romance “Retalhos da vida de um médico” um livro enternecedor do Neorealismo, que mostra as dificuldades de um jovem médico e o que ele enfrenta para ser aceite na pequena comunidade, onde segundo as suas palavras, numa entrevista em 1979  “o herói vai de povo em povo, descobrindo os homens e os cenários da sua luta, surpreendendo-se e misturando-se, leva consigo a solidariedade e a confiança”. 

Também vi nesta especialidade a diferença entre o “Ser” e o “Ter” que só mais tarde reconheci nos livros de Isabel Abecassis Empis “Ser não é ter, é relacionarmo-nos positiva e emocionalmente com pessoas, objetos, situações, ideias através do nosso afeto, e não em vez dele. Nós não somos aquilo que temos, somos sim a nossa relação com aquilo que temos”, de facto ser medica, não é ter uma licenciatura em tratar pessoas mas mais como dizia Amália Rodrigues, ser por si mesmo “Uma estranha forma de vida”, onde me encontrei de novo com a criança que fui: A aventureira que tenta todos os dias, através do seu trabalho, curar as pessoas através de enredos diagnóstico e tenta deixar um pouco de si em cada pessoa que toca, corrigindo injustiças em cada desfavorecido que trata.

Pelo meu texto já se percebe, que Medicina é para mim uma paixão, que tento transmitir todos os dias aos Internos que acompanho (que é um prazer), nos artigos  científicos que timidamente escrevo (menos do que o que gostaria), nos contributos que humildemente vou dando no Associativismo, no Colégio de Medicina Geral e Familiar onde nitidamente recebo mais do que dou (ainda não percebi o que estou lá a fazer)  e nos caminhos da liderança, onde todos os dias tento aprender algo para ajudar a minha equipa a crescer e a ser melhor.

Ao longo do meu percurso, por vezes tortuoso, fui sempre acompanhada por duas madrinhas, uma a Persistência, com a qual contava sempre que falhava  ou experimentava insucessos… e a outra a Coragem, a quem ia buscar o Poder da Vulnerabilidade como um meio de contornar a vergonha, conceito muito bem explorado por outra grande senhora Brené Brouwn, em que a vulnerabilidade neste contexto significa a disposição de se expor, de se expressar de uma forma autêntica e franca, de fazer coisas sem garantia, de correr riscos.

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#SociedadePortugal; #FemaleLeadership; #MedicalCareer; #MedicinaGeraleFamiliar

Publicado por Hugo Barbosa

Empenhado em deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei!

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