Diáspora Portuguesa: Da “mala de cartão” ao “canudo no bolso”!

Já vos contei que acredito no meu País?

Pois, é verdade, acredito verdadeiramente no potencial de um País e de um povo que ao longo da História já deu inúmeras provas de saber reinventar-se continuamente!

Acredito no potencial de um País e de um Povo que soube ser pequeno… soube ser grande… soube ser enorme… e soube voltar a ser pequeno… sem nunca perder a ilusão de ter um papel e uma voz!

E, se durante os sec XV e XVI, fomos capazes de sair à aventura para “dar novos mundos ao mundo” hoje, talvez herdeiros deste mesmo espírito, mantemos esta vocação internacionalista patente no grande número de comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.

Sim, somos um país de emigrantes! Pois se em Portugal somos 10.3 Milhões1… somos ainda, outros 2.3 Milhões2 espalhados pelos vários continentes!

Desde pequenos que conhecemos a imagem do Emigrante que deixava a sua terra com uma mala de cartão… um emigrante, muitas vezes com baixa qualificação, que deixava um País parco em oportunidades à procura de uma vida melhor… O mesmo emigrante que trabalhava de sol a sol, enviando para Portugal as poupanças que podia… enquanto construía, “na terra”, a casa que sonhava ter! Aquele que voltava, de carro, em agosto para a festa da sua aldeia, onde recarregava energias para mais um ano de luta!

Estes foram os emigrantes que durante anos e anos dinamizaram uma boa parte das economias locais… Mas muito mais que isso… Estes foram os emigrantes que contribuíram de forma marcante para a economia nacional… Como um dia disse um antigo Primeiro Ministro “quanto menores forem as remessas de emigrantes para Portugal, e quanto menor for o seu investimento no país, menos crédito terão os bancos para conceder às pessoas”3.

Mas, entretanto, o País mudou! Aquele País que estes Portugueses deixaram já não existe… tendo dado lugar a um Portugal aberto e muito mais inclusivo… Um país que reduziu a taxa de analfabetismo de cerca de 26% em 1970, para menos de 5% em 2011(últimos dados disponíveis) tendo aumentado a percentagem de pessoas com estudos superiores de 0,9% para 14,8% no mesmo período4!

Mas mesmo assim os Portugueses continuam a emigrar. Na verdade, depois de uma estabilização, e mesmo ligeiro decréscimo, no início do sec.XXI, a crise económica e o duro plano de ajustamento a que fomos sujeitos, acabou por resultar num novo aumento como mostra o gráfico da Figura 1:

Figura 1: Estimativas do número total de emigrantes portugueses, 1990-20175

No entanto entre aqueles que deixaram o País nas ultimas décadas do sec.XX, e estes novos emigrantes existem diferenças interessantes de se analisarem…

Segundo um estudo do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre a situação dos emigrantes portugueses no mercado de trabalho europeu6 assistimos, hoje, a uma mudança de paradigma na emigração portuguesa…

Esta mudança é visível, desde logo, nas qualificações académicas… neste âmbito o estudo mostra que se entre os emigrantes mais velhos vemos níveis de escolaridade baixos (ensino básico), mais de um quarto dos emigrantes mais jovens possuem formação superior. De facto, quando analisamos comparativamente o grupo etário dos 25-39 anos com o de 55-64 anos, a proporção de emigrantes mais jovens com ensino superior é cerca de 10 vezes a dos emigrantes mais velhos.

Mas o mais interessante é que quando comparamos com a população residente em Portugal, o estudo conclui que os emigrantes portugueses são mais jovens, mais qualificados e beneficiam de uma maior taxa de emprego.

Isso… 

Segundo este estudo, a população emigrada é mais jovem… tem mais estudos… e mais emprego que a população residente em Portugal!

Impressionante, não? Sobretudo porque continuamos com a imagem da velha mala de cartão!

A verdade é que, na última década, assistimos à emigração daquela que é, sem sombra de dúvidas, a geração mais qualificada do nosso País…  E, se muitas vezes vejo referencias a esta realidade como algo negativo, hoje eu não queria ir por aí…

Ao contrário, esta é uma realidade que me enche de esperança no futuro… Na verdade, tal como os emigrantes de antanho contribuíram, com as suas remessas e o seu consumo, para o nosso crescimento económico… Esta nova geração de emigrantes poderá ter um papel ainda mais determinante, porque acredito no muito mais que têm para oferecer!

É por isso que, quando penso no futuro do meu País, sempre penso no potencial transformador que estas experiências agregadas poderão aportar à nossa sociedade!

Hoje, como ontem, a diáspora é um recurso que temos de saber explorar… 

Hoje como ontem os Portugueses na diáspora sonham voltar, desta vez não para construir a sua “casa na terra”… mas, mais do que isso, para ajudar a construir a sua terra que é também a sua casa! 

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#PoliticaPortugal

#DiasporaPortuguesa

#SociedadePortugal

  1. INE, PORDATA
  2. http://observatorioemigracao.pt/np4/4990.html
  3. http://observatorioemigracao.pt/np4/2029.html
  4. Dados Censos 2011 – INE
  5. http://observatorioemigracao.pt/np4/4990.html
  6. https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_estudos&ESTUDOSest_boui=299950104&ESTUDOSmodo=2&xlang=pt

Publicado por Hugo Barbosa

Empenhado em deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei!

12 opiniões sobre “Diáspora Portuguesa: Da “mala de cartão” ao “canudo no bolso”!

  1. Olá Hugo, deixa-me desde já dar te os Parabens pela iniciativa. Perdemos a capacidade de discutir, pelo prazer que trás a troca de ideias e o potencial de crescimento que a discussão aporta aos seus participantes. Passamos a discutir partidos, politiquice e não ideias.
    Relativamente ao tema da emigração, gostava de ter a tua esperança de que os nosso jovens irão voltar e ajudar a crescer este País, infelizmente não tenho essa opinião, provavelmente por estar a olhar de “dentro para fora”.
    Mais uma vez Parabens, Abraco e Boas Festas.

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    1. Olá Alcobia… Obrigado pelas tuas palavras!
      Sim sou um optimista… mas neste caso um optimista emigrado que convive com muitos deste emigrantes da nova geração e que vê na sua maioria uma vontade de participar no desenvolvimento do seu país…
      Dito isto, acho que para que esta participação acontece é necessário que seja estimulada por políticas e medidas que os aproximem do processo democrático Português… Mas esse será tema para um novo texto! 😉

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    2. Ola Hugo,
      Antes de mais parabéns pelo blog e pelos textos que vou acompanhando frequentemente. Este tema é me muito familiar e a tua análise irrepreensível. Os comentários que aqui já foram feitos tocam pontos muito importantes: “quão preparado estará o país para o regresso desta geração quando isso acontecer?” E também “porque emigram tantas pessoas com potencial e qualificadas, e será que isso vai mudar no futuro?”. São apenas dois exemplos, relacionados entre si, e que dariam outros posts e forums de discussão muito interessantes. O meu ponto de vista coincide com o teu na tua resposta ao primeiro comentário. Vejo na minha geração (80s) uma grande descrença na governação do nosso país (seja mais à esquerda ou mais à direita) e um desânimo com a falta de meritocracia que se faz sentir e é cada vez mais visível (e, quiçá, aceite). Fora de Portugal é melhor? Difícil de responder, mas seguramente que pode ser diferente, e ganha-se mais do que se perde em experimentar.

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      1. Roberto! Que bom que estás a gostar do Blog!
        Dizes bem… temos aqui tema para vários posts!
        E seguramente que voltarei aqui para tentar reflectir sobre as causas desse afastamento e de como penso ser possível contrariar o mesmo.
        Abraço

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  2. Olá Hugo,

    Apesar de todos contribuírem de formas distintas para o país, existe como dizes, diversas conotações negativas relacionadas com a emigração. No entanto, há 2 situações que sobressaem neste tema, primeiro a “inveja” que alguma parte do povo tem por ver a alegria dos emigrantrs quando voltam de férias, sem se lembrarem que essa alegria é fruto da palavra portuguesa sem tradução no mundo inteiro – a saudade – e sem pensarem no que abdicam para em primeiro partirem, e depois poderem voltar por breves tempos, com a certeza que o tempo é curto e tem de ser aproveitado. A segunda questão é o facto de vermos uma geração tão talentosa e qualificada emigrar, não em busca de uma oportunidade diferente, mas porque em Portugal não encontram uma oportunidade do tamanho dos seus sonhos e ambições. E aqui creio que Portugal falha bastante na não criação de oportunidades, ao olhar a contratação de talento e qualificação como um custo e não como um investimento a médio prazo. Isto porque vai sempre existir a vontade de muitos explorarem o mundo, e procurarem oportunidades melhores, mas também os patrões portugueses não sabem aproveitar o que têm dentro de portas!

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    1. Olá Fred… Na verdade creio que a mobilidade é positiva! Claro que existem casos e casos… Mas na generalidade a experiência que esses talentos adquirem no estrangeiro só os tornará melhores e mais capazes de fazerem a diferença no dia em que regressem…
      Colocas alguns pontos reais e que urge resolver… O problema é que as nossas políticas são pouco arrojadas e por isso mesmo, permitem que empresas inviáveis continuam a sobreviver através da fuga aos impostos e do pagamento de salários baixos… e enquanto estas empresas forem maioritárias o talento continuará a ser visto como um custo!
      Mas voltando ao tema da mobilidade, temos de ser capazes não só de ver como positivo a saída dos nossos jovens como também estar preparados para receber jovens de outros países!…
      Vivemos num mundo Global e numa Europa sem fronteiras… o melhor será procurar tirar o melhor que esta oportunidade nos dá! E é muito!

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      1. Olá Hugo,

        Sem dúvida que a mobilidade é positiva, totalmente de acordo (e cada vez mais de acordo). Apesar de não estar emigrado, tenho saído do país em trabalho com frequência e sinto na pele o quão enriquecedor é o contacto com diferentes culturas, formas de viver, realidades e mostra-me ainda mais o que tenho pela frente para aprender!
        No entanto o que estava a tentar levantar é o motivo que leva as pessoas a emigrar. Se há algumas décadas era uma busca por uma vida melhor devido à situação do país, neste momento sinto que esse não deveria ser o motivo atual. Mas tal como apresentas nos dados, um dos principais motivos da emigração desta ultima década, é precisamente o mesmo, a procura de oportunidades e uma vida melhor.
        E essas oportunidades, eu não diria que são inexistentes, diria que não são proporcionadas, pois acredito que o nosso país tem um contexto favorável à criação desse tipo de oportunidades e que obviamente traria benefícios à competitividade das empresas e do país.
        Seja lá fora ou cá dentro, a qualidade do trabalho de um português traz dividendos ao país, mas seria ótimo que o motivo que leva à emigração fosse algo como a experiência, a aventura, a busca por algo específico, a motivação por algo que se gosta, e não a busca por algo que não existe no nosso país e que força as pessoas a largarem vidas, sonhos e familias apenas porque não têm oportunidades cá, ou seja, pessoas cuja motivação principal é ficar e não sair.
        Apesar disso e pegando no tema mobilidade, a mesma pode ser extremamente benéfica para as nossas empresas, ao proporcionarem diferentes contextos de trabalho, necessários à exportação, à globalização, ao acesso digital dos produtos, mas para isso como referi anteriormente é muito importante os empresários adotarem uma visão de investimento e não de custo.

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  3. Olá Hugo – obrigada pela partilha deste teu blog e também deste teu post que tanto me toca ao coração.

    Estive quase 15 anos fora do país e regressei a Portugal o ano passado. Fui por um projecto em que acreditei e voltei precisamente pelo mesmo motivo – bem com com uma vontade de contribuir para o país que me deu parte da minha formação.

    Concordo relativamente às diferenças que apontas existirem entre esta geração dos anos 80 que emigrou e as anteriores – mas há uma que falta…a certeza que hoje estou em Lisboa mas amanhã posso voltar a sair – agilidade e percepção de que o mundo e maior do que este pequeno retângulo e que a felicidade se encontra fora da nossa terra… não esperamos para ser felizes durante as férias de verão ou o Natal – integramos a sociedade onde estamos, escolhemos ter duas e três nacionalidades, participamos activamente na sociedade onde nos enquadramos…e os amigos são de todas as religiões, crenças e orientações – sem julgamentos e sem silos.

    Como emigrante nunca me senti estigmatizada fora do meu país – as experiências que tive e as oportunidades de crescimento foram tantas que hoje carrego dois países no coração. Chamo saudade aquilo que sinto por Lisboa mas também Londres. E isso faz com que viva o presente aqui e agora feliz, mas que pense que o futuro pode vir de novas descobertas noutros lugares. Em Portugal estou hoje e agora – mas não será para sempre.

    Um grande beijinho e continua a escrever 🙂

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    1. Olá Carolina! Que bom ver-te “por aqui”… Concordo em absoluto contigo!
      Acho que podemos “ser patriotas” e querer contribuir para o nosso pais, ao mesmo tempo que somos “Cidadãos do Mundo” e encontramos a felicidade onde quer que escolhamos viver!

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